O 3D também é idoso!
Conheça a história dessa técnica que é tão antiga quanto o próprio cinema
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Por: Bruno Piola |
Quando Avatar, de James Cameron, estreou nos cinemas no ano passado, o mundo inteiro voltou seus olhos para o cinema 3D. A campanha de marketing milionária realizada pelo estúdio do filme, a FOX, funcionou: todos queriam assistir ao filme que revolucionaria o cinema e prometia um espetáculo visual a quem quer que fosse assisti-lo. Avatar ainda está em cartaz, e é o atual campeão de bilheteria mundial, arrecadando cerca 2,7 bilhões de dólares.
O sucesso estrondoso dessa produção e de várias outras está fazendo com que, cada vez mais, os estúdios empreguem esta técnica em seus filmes. Mas seria o 3D uma técnica duradoura? As pessoas não irão se cansar desses efeitos? Isto só o tempo dirá. O que podemos fazer por enquanto é mostrar que o 3D caminha lado a lado com a própria história do cinema, ora sendo uma sensação como a que se vê hoje, ora relegado a segundo plano.
Para você que achava filmes em três dimensões algo “muito moderno e avançado”, saiba que é uma técnica antiqüíssima. Para chegarmos ao nível de Avatar, foi preciso um século de estudo, suor, e muita criatividade.
Nascimento, Transformação, Evolução
Depois que os irmãos Lumiére organizaram a primeira exibição de filmes, na Paris de 1895, vários pesquisadores e estudiosos se interessaram em criar suas próprias imagens em movimento. Um deles foi William Friese-Greene que, ainda na década de 1890, patenteou um processo de se fazer filmes em três dimensões. Para tal, era preciso que dois filmes fossem projetados lado a lado. O espectador, então, olhava a tela através de uma máquina chamada estereoscópio para perceber o efeito. No entanto, os equipamentos eram grandes e pesados, e seu uso nos cinemas era inviável.
Friese-Greene foi o primeiro a se aventurar no terreno incerto das três dimensões, mas não foi o único. Em 1915, Edwin Porter e William Waddell fizeram os primeiros testes com filmes que exigiam o uso de óculos especiais, e em 1922, aconteceu a primeira sessão paga de um filme em três dimensões. Até aí, o cinema 3D fazia uso dos famosos óculos anáglifos (com uma lente de cada cor – o mais conhecido era aquele com uma vermelha e outra azul, mas outras cores, como o verde, também eram usadas).

Ilustração de uma das primeiras sessões 3D, datada de 1922 (Créditos: Wikipédia)
A evolução da técnica, que ia a todo vapor, foi interrompida pela Grande Depressão na década de 20 e 30 nos Estados Unidos. Mas um homem não se deixou levar pelas dificuldades: Edwin Land, criador de uma técnica que usava a polarização (ver item abaixo), mais eficaz que a anáglifa. Ele a demonstrou pela primeira vez em 1936, mas a Segunda Guerra Mundial, em 1939, interrompeu, mais uma vez, o progresso do 3D.
Exibições em 3D só iriam voltar a ser populares do começo ao meio da década de 50, sua “era do ouro”. Os grandes estúdios haviam adotado a polarização para a produção de vários filmes importantes, como Museu de Cera, A Casa da Colina, 13 Fantasmas, o clássico do terror O Monstro da Lagoa Negra e Disque M Para Matar, de Alfred Hitchcock. O 3D era a aposta dos executivos para trazer de volta ao cinema, quem preferia ficar em casa e assistir filmes na televisão, que também nessa época se popularizara.
Mas, já em 1955, os filmes em três dimensões haviam sido deixados de lado. Dessa vez, o responsável não foi nem um recesso econômico, nem uma guerra, mas o próprio mecanismo (ver item abaixo), que era de difícil manuseio e caro. Além disso, o público achava os óculos desconfortáveis. Assim, a filmagem de produções em três dimensões foi drasticamente reduzida...
 
Cartazes de Disque M Para Matar e O Monstro da Lagoa Negra: filmes da “era de ouro” do 3D (Créditos: Photobucket)
...Até que, em 1985, a companhia IMAX passou a lançar filmes 3D. Apesar de manter o sistema polarizado, sua técnica (que recebeu o mesmo nome da empresa) corrigia algumas imperfeições deste, eliminava a maior parte dos problemas causado pelos óculos e possibilitava a exibição dos filmes em telas maiores. Com o desenvolvimento do 3D, a produção de filmes voltou a aumentar, e dessa vez, para não mais diminuir. Isto é, até este momento!
A partir de 2003, os filmes em três dimensões do formato IMAX passaram a ter grande distribuição nos cinemas, como Pequenos Espiões 3D (2003), O Expresso Polar (2004) e As Aventuras de Sharkboy e Lavagirl (2005). Outros sistemas passaram a surgir, como o Dolby 3D e o RealD, que é hoje é a tecnologia mais comum e mais barata em cinemas 3D em todo o mundo. E, assim, voltamos a Avatar, o filme 3D mais bem-sucedido da história, mas que é apenas um dentre vários títulos disponíveis no mercado de hoje. O 3D, pelo menos por enquanto, está na moda.
Como o 3D funciona?
Existem inúmeros sistemas criados para ver filmes em 3 dimensões, mas apenas dois se tornaram relevantes: o anáglifo e o polarizado. Ambos fazem uso da nossa visão binocular, que é a junção das duas imagens distintas formadas por nossos olhos, através do cérebro. É a visão binocular que nos dá a sensação de profundidade no dia-a-dia. Mas, ao ir ao cinema, a imagem é plana. É aqui que entram em cena esses dois processos. Veja abaixo as características de cada um.
Sistema Anáglifo: É mais lembrado pelo seu modelo de óculos clássico, com uma lente vermelha e outra azul, que podia ser usado em livros e na TV, além dos cinemas. Os filmes deste formato eram filmados em duas camadas de cores (vermelho e azul/verde) e depois eram reunidos em uma única tira de filme. Assim, o lado vermelho dos óculos absorve apenas o “filme vermelho”, e o lado azul, apenas o “filme azul”. Como são duas imagens distintas (assim como seriam as duas imagens formadas pelos nossos dois olhos), o cérebro as junta, dando a sensação de profundidade. No entanto, esse sistema era muito difícil de se preparar: era preciso juntar dois filmes diferentes, não podendo haver qualquer erro de sincronização ou o efeito seria perdido. Os óculos também causavam dores de cabeça, náuseas e até mesmo lesões oculares em pessoas que iam assistir aos filmes. Para piorar, os filmes ficavam extremamente escuros. Por isso, logo entrou em declínio.
 
Óculos do sistema anáglifo (esq.) e do polarizadoo RealD (Créditos: Coimbracity e Dualchoice)
Sistema Polarizado: Este processo é similar ao anáglifo, só que, em vez de usar cores para filtrar imagens de cada olho, a polarização torna-se a responsável pelo efeito. Duas imagens são superpostas em uma tela através de dois filtros polarizadores. Cada imagem polarizada é ligeiramente diferente da outra, e cada olho absorve apenas uma delas. Assim, novamente graças à visão binocular, o efeito em três dimensões é alcançado. Hoje, ela é conseguida com apenas um projetor, mas no começo, eram necessários dois. A polarização é bem mais aceita pelo público porque não causa nenhum tipo de problema ao assistir ao filme. Além disso, um filme 3D polarizado é mais fácil de se filmar e de ser projetado que os anáglifos. Vale lembrar, também, que a polarização tinha seus defeitos no início, mas empresas como a IMAX desenvolveram a técnica.
3D para o público, crítica...e a terceira idade
E o que as pessoas pensam do cinema 3D? Entrevistamos uma espectadora, um crítico de cinema e uma aposentada para descobrirmos suas opiniões sobre os filmes em três dimensões.
A estudante Letícia Andrade, 20, prefere filmes 3D a normais. “A imagem em três dimensões parece mais colorida, a profundidade é mais nítida e você consegue distinguir pequenos detalhes na película que não vê em filmes normais. Além disso, você se sente parte da história”, comenta. No entanto, ela não considera o sistema perfeito: “O 3D está sendo usado apenas como uma ferramenta para trabalhar a profundidade em poucos momentos dos filmes, e raras vezes fazer as imagens saírem da tela. O 3D vem usado como ferramenta de brincadeira - exatamente como os parques de diversão costumavam fazer com seus filmes curtas em 3D - e não como deveria ser usado”.
Já o crítico de cinema Sérgio Rizzo, 44, é mais otimista quanto à técnica. “A possibilidade de filmes em 3D atingirem estéticas mais refinadas é estimulante. Sinto que estamos ainda na pré-história do uso dessa tecnologia. O futuro pode nos reservar boas surpresas”, aposta. Rizzo ainda analisou o motivo do 3D ser mais bem-sucedido do que em outras épocas. “Por um lado, o avanço tecnológico, na esteira da revolução digital, permite fazer hoje o que nem em sonho era possível realizar nos anos 50. De outro, existe a aposta da indústria em atrair para os cinemas um público que só estaria disposto a sair de casa em razão de uma promessa de divertimento não-convencional”.
E para fechar com chave de ouro, Anisia Spezia, de 62 anos, escreve para o site Portal Terceira Idade e opinou sobre o tema. “Apesar da terceira idade ter muito interesse no novo, não existem titulos em 3D que possam despertar o interesse da terceira idade. O cinema antigo, muito embora tenha muitos adeptos, foi deixado de lado pelo cinema moderno. Acho que a aceitação para o 3D vai demorar um pouco mais, embora alguns são mais vistos pelos idosos como A Era do Gelo 3, As Aventuras de SharkBoy e LavaGirl ou Toy Story 2. Com certeza, eles vão ver estes títulos acompanhando filhos ou netos. E ela aproveita para sugerir: “Se houvesse gêneros mais variados em 3D, despertariam interesse e curiosidade na terceira idade, principalmente regravações de clássicos. Já pensou Casablanca em 3D? Ou Dr. Jivago? A terceira idade compareceria em peso”. |