"Se a terceira idade vai ser a melhor fase que a pessoa vai ter ou não só vai depender dela mesma"
Sobre a importância dos grupos voltados à terceira idade convidamos a psicóloga Gislaine Aude Fantini para uma entrevista exclusiva sobre o assunto. Há quase 17 anos, Gislaine é coordenadora da UATI - Universidade Aberta à Terceira Idade – da Universidade do Sagrado Coração (USC) de Bauru.

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Por Jéssica Godoy
Maio de 2011
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IdosoMídia: Quais os tipos de projetos realizados pela UATI e o objetivo deles? Quem pode participar?
Gislaine Fantini: O preceito inicial da UATI (Universidade Aberta à Terceira Idade) da Universidade do Sagrado Coração de Bauru (USC) é rejuvenescer a velhice e amadurecer a juventude. Traduzindo para os dias de hoje, nós queremos proporcionar uma reciclagem cultural e atualização para os idosos que procuram a UATI. Os projetos acontecem semestralmente. Existem projetos que terminam e outros que continuam mesmo depois do fim do semestre. Por exemplo, tentamos sempre oferecer informática e curso de línguas, principalmente inglês e espanhol. Fora isso, as mulheres procuram muito também praticar atividades físicas, por isso promovemos aulas de ginástica. Temos também atividades voltadas para a parte cultural e artística como o teatro, coral, dança. Além disso, também são propiciados projetos em que eles (os idosos) vão para a sala de aula e exercitam o raciocínio. São mais de 35 utilidades oferecidas durante a semana para os alunos matriculados aqui. Os nossos critérios para participação são pessoas com 50 anos ou mais que sejam alfabetizadas.
I.M.: De que maneira a participação em grupos, como, por exemplo, os da UATI, podem beneficiar as pessoas da terceira idade? Qual a importância dos grupos de Terceira Idade?
G. F.: A importância é grande e começou a ficar maior ainda pelo fato das pessoas estarem vivendo mais. Antigamente, as pessoas não tinham essa preocupação. Mas hoje a expectativa de vida aumentou muito. As pessoas de se aposentarem, ainda têm 20, 30 anos pela frente. A procura por grupos de terceira idade acaba sendo uma retomada na vida, um novo caminho a ser seguido. Depois da aposentadoria, de muitos anos casados, dos filhos criados, de separações ou depois que ficaram viúvos, a participação nesses grupos de terceira idade acaba sendo a tomada de um novo rumo na vida, principalmente para as pessoas que estão se sentindo desatualizadas.
I.M.: Quem geralmente procura os grupos voltados à terceira idade: os familiares ou os próprios idosos?
G.F: Geralmente, os próprios idosos procuram a Universidade Aberta à Terceira Idade. Quando a família traz o idoso e quer que ele participe, às vezes é muito difícil a permanência dele. Na realidade o idoso tem que ter vontade, interesse, porque aqui nós não temos nada que o prenda, uma vez que apesar dele estar dentro de uma universidade, assistir a aulas, ele não faz provas e não tem problemas com faltas. O idoso tem que ter o prazer e a motivação de estar na casa dele e vir para a Universidade para aprender, para se encontrar com os amigos, para viver nesse mundo universitário que é maravilhoso, mas ele tem que descobrir isso dentro dele mesmo.
I.M.: Atividades sociais podem ajudar a prevenir doenças como a de Alzheimer, por exemplo? De que forma?
G.F.: Nós recentemente tivemos uma palestra com um geriatra falando da importância para o idoso ler, praticar atividade física e se interar socialmente. Até que ponto isso vai evitar o aparecimento do Alzheimer ainda não sabemos, porque ainda não existe um diagnóstico específico da doença. Mas pudemos constatar que as pessoas estão tendo mais prazer e alegria de viver, pelo menos nesses anos nos quais elas estão passando aqui na Universidade. É nisso que focamos: oferecemos tudo o que podemos para que eles se sintam bem. Entendemos, com isso, que esse estar bem é muito bom para a vida deles.
I.M.: Quais cuidados devem ser observados na elaboração de atividades para a Terceira Idade?
G.F.: Tudo funciona na base de métodos. Nós, por trabalharmos aqui com os idosos, principalmente na área física, fazemos cursos de reciclagem. Não podemos pegar um idoso e oferecer um exercício físico para ele sem saber se tem algum problema ou não. Sempre orientamos os profissionais que vão trabalhar com os idosos para que tenham o máximo de cuidado e façam cursos para se reciclar e poder oferecer um serviço digno e correto de trabalho para a terceira idade, o que é muito difícil. Existem conceitos, existem muitos requisitos para se trabalhar com o idoso. Estamos a 17 anos trabalhando e, todos os dias, aprendemos coisas novas.
I.M.: A idade, portanto, pode ser considerada uma época para as pessoas iniciarem atividades a fim de conseguir resultados satisfatórios tanto para a saúde – mental e física – quanto para o aprendizado?
G.F.: Com certeza. A questão do envelhecimento é recente e começamos a estudar essa questão a partir da década de 1990. Antes disso, as pessoas acreditavam que quando você chegasse à idade adulta ou à velhice, não ia mais ter condições de aprender nada, nem de começar a se exercitar. Hoje em dia, existem estudos mostrando que os idoso possuem condições de aprender; o processo cognitivo dele não para porque ele fez 50 anos de idade, mas pelo contrário, ele é contínuo, depende da pessoa estimulá-lo. Existem pessoas de 60, 70 anos que estão aprendendo. Percebemos que o processo cognitivo realmente continua. Na questão física, cada vez mais o organismo da pessoa que começa uma caminhada, uma fisioterapia ou um esporte se beneficia. A questão da fisioterapia atualmente tem trabalhado muito com a recuperação da massa muscular, que é muito perdida pelo idoso. Então, nós que trabalhamos com esse segmento temos visto a teoria e observado na prática a quantidade de pessoas aprendendo.
I.M.: Qual é geralmente o perfil das pessoas que entram e das que saem depois de participarem desses grupos voltados aos idosos?
G.F.: Geralmente as pessoas que procuram nossas ações aqui vêm com o objetivo de se atualizar. Podemos citar duas fases: na década de 1990 as pessoas procuravam mais, porque gostariam de fazer uma formatura, realizada a cada dois anos. Eram pessoas que nunca tinham se formado em uma Universidade. Depois do ano 2000, em que fiz minha dissertação de mestrado nessa área, as pessoas passaram a procurar cada vez mais a Universidade para se reciclar se atualizar. Assim, hoje, geralmente elas entram e não saem mais, a cada semestre procuram fazer atividades diferentes Só param as pessoas que se aposentaram e tiveram problemas de saúde. Mas, atualmente, elas se integram nos grupos. Temos pessoas que estão conosco a cinco, seis anos ou mais.
I.M.: Existem idosos extremamente ativos e "cheios de vida". A senhora saberia dizer o que deve ser feito para estimular aqueles que fogem a essa característica?
G.F.: Essa é uma pergunta que temos tentado junto com o setor de marketing aqui da Universidade: como nós poderíamos atingir essas pessoas? Porque em Bauru, de acordo com o último censo, que ainda não foi concluído, existem mais de 40 mil idosos – entre acamados e pessoas saudáveis - com 60 anos ou mais. Nós trabalhamos com a terminologia terceira idade que é a partir de 50 anos, mas pela lei no Brasil é considerado idoso a partir dos 60. Bauru possui muitos grupos que trabalham com idosos e mesmo assim o número atingido é pequeno. Nós (UATI) temos 200 alunos. Mas oferecemos vagas para o dobro de alunos. Esse é um ponto que ainda é falho. Aqui, por exemplo, por 40 reais, eles possuem todas essas atividades durante manhã e tarde e, ainda, podem cursar disciplinas, dois cursos de graduação no período noturno. A falta de informação pode ser o grande problema.
I.M.: Poderia nos contar um pouco sobre a XII Semana da Terceira Idade?
G.F.: Foi uma semana repleta de atividades durante os três períodos do dia, na qual todos os grupos tentaram se interar. Tentamos reunir todos esses grupos da cidade. Os de poder aquisitivo maior, que são os nossos, levaram para esses idosos que não são tão financeiramente privilegiados alegria através da dança e da música, além de todas as atividades que a coordenação preparou de palestras e eventos. Sinto que com essa semana municipal fortalecemos cada vez mais esse o trabalho com os idosos aqui em Bauru.
I.M.: Qual recado você deixa para aqueles que ainda não chegaram e aos que já estão na terceira idade?
G.F.: Terceira idade é uma terminologia que às vezes incomoda muitas pessoas. Algumas preferem o termo melhor idade ou outros termos. Na realidade a expressão "terceira idade" é usada aqui e consideramos pertencentes a esse grupo as pessoas com 50 anos ou mais. As pessoas que estão entrando na terceira idade estão também ingressando em um novo ritmo de vida, passando por muitas transformações físicas a partir dessa idade, mas que, na maioria, estão em plena capacidade de suas funções. A chamada terceira idade que para muitos arrepia, para outros, como também para mim, trata-se de uma fase transitória tão boa como as outras. Se ela vai ser a melhor fase que você teve ou não vai depender de você. Hoje em dia com todas essas tecnologias você encontra pessoas de 70 anos lindíssimas dentro da idade delas, com todo o vigor, toda jovialidade, desde que ela assuma bem esses anos que ainda existirão pela frente. Então, meu recado é: vamos curtir ao máximo a vida e tudo o que ela pode nos proporcionar, porque acredito que a vida sempre tenha que ser bem vivida.

Artesanato feito pelos idosos na UATI da USC
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