Um pedaço de mim

Por: Gabriela Nascimento

Outubro de 2009

Em um momento daqueles sonos da manhã, em que não se consegue definir entre sonho e realidade, ouço ao fundo o som de leve dos pássaros. Meus pés estão descalços na grama verde e úmida andando lentamente rumo ao pomar. Naqueles dias não se tinha pressa, apesar da juventude, o tempo era minuciosamente saboreado. Vou recobrando de leve a consciência e desperto finalmente, conseguindo distinguir o barulho dos pássaros do viveiro no quintal. Viver na cidade é muito bom, o progresso é bom. Ou pelo menos me convenci de que é. Aqui tem médico, tem supermercado, tem carro, não existe distância. Todas as facilidades dos eletrodomésticos, o computador. É fácil aceitar os benefícios, difícil é esquecer o que ficou pra trás. Difícil é ver alguém que não conserva um pouquinho do campo em si. Uma hortinha mirrada no quintal, aguada com muito zelo todos os dias. Uma arvorezinha murcha, que luta pra viver em um buraco de terra cavado no quintal de cimento. Um aquário com carpinhas, que logo crescem e não se sabe mais o que fazer com elas. Uma gaiola apertada com três canarinhos que já não cantam mais e que brigam pelo pouco alpiste que lhes resta. O campo é bom, é sim. É romantizado também. A cidade é boa, é sim. É supervalorizada. É nessa dubiedade que transito enquanto o rio que passava atrás da minha casa já não existe mais. O terreno que era pomar virou estacionamento e a pensão que construí ao longo dos anos foi demolida pra virar um hotel. O progresso é necessário e eu entendo isso, mas acho que ele não se dispõe a considerar o que eu sinto. E por mais que eu o aceite, será que ele me aceita assim tão facilmente? Não sei, mas enquanto isso, vou aproveitando o que ele pode me dar de melhor e lutando para que o que resta do meu passado permaneça presente. Minha neta grita lá da sala: “Vamos vô! tá pronto?”. Saio do quarto e ela aparece com uma vara de bambu na mão. Hoje vou levá-la a um pesqueiro. “Aonde agente vai pegar minhoca vô?”. Ah, a gente arruma minha filha, a gente arruma.