Contribuintes
antigos – revendo a caderneta e os fiados
Dagoberto José Fonseca
Unesp-Araraquara
Introdução
A África mantém-se como um continente desconhecido para
a maioria da população brasileira, seja ela docente ou
discente. As escolas de ensino infantil, fundamental,
médio e universitário (para não dizer superior), no geral,
não abordam o passado africano. Muito embora, esse passado
esteja tão presente no cotidiano nacional, seja através
das palavras faladas, da cultura, das religiões, das
instituições, da economia etc.
O desconhecimento e o silêncio sobre o passado dos diversos
países africanos nos cursos superiores das diferentes áreas
do conhecimento é imenso. Esses desconhecimento e silêncio
têm sido uma opção arbitrária e política dos nossos educadores,
docentes e lideranças políticas e econômicas.
A África subsaariana, principalmente, foi desprezada pelas
sociedades e sistemas de ensino ocidentais aparentemente
pela idéia de que ela fosse destituída da escrita. Essas
sociedades e grupos sociais, étnicos, sexuais e religiosos
precisam ser estudados, pois têm e estão na história
(KI-ZERBO, 1982). Antes, de analisarmos a presença africana
no Brasil e seu legado ao nosso país, queremos tratar
de uma maneira, ainda que breve, sobre a influência africana
em outras partes do mundo.
África:
lugar das primeiras descobertas, invenções e instituições
humanas
O continente africano
além de ser o berço da humanidade é, também, o das civilizações
(FONSECA, 2004, p. 60). Muito embora essa afirmação possa
ser contestada pela definição de civilização e pela situação
geográfica dada pela New Columbia Encyclopedia (NASCIMENTO,
1975, p. 565):
é aquele complexo de elementos
culturais que primeiro apareceram na história humana,
entre 8 mil e 6 mil anos atrás. Nessa época, baseada
na agricultura, criação de gado e metalurgia, começou
a aparecer a especialização ocupacional extensiva nos
vales do rios do sudoeste da Ásia (Tigre e Eufrates).
Apareceu lá também a escrita, bem como agregações urbanas
bastante densas que acomodavam administradores, comerciantes
e outros especialistas.
Porém, Elisa L. Nascimento nos diz:
está cada vez mais comprovada a
anterioridade da evolução do continente africano dos
elementos citados (agricultura, criação de gado, metalurgia,
especialização ocupacional) que convergem no desenvolvimento
da civilização (1996, p. 42).
Deu-se na África a primeira revolução tecnológica da humanidade,
a passagem de caçador e coletor de frutos e raízes para
a agricultura e pecuária. A agricultura africana, no
vale do rio Nilo, tem cerca de 18 mil anos atrás, sendo
duas vezes mais antiga do que no sudoeste asiático (apud
NASCIMENTO, 1996, p. 42). A pecuária aparece há 15 mil
anos atrás, perto da atual Nairobi (Quênia), sendo uma
técnica sofisticada de domesticação de animais que deve
ter se espalhado para os vales dos rios Tigre e Eufrates
séculos depois (apud, NASCIMENTO, 1996, p. 42).
As diferentes etnias africanas utilizaram de veículos
diversos para propagarem seu saber, sua visão de mundo,
etc. para as gerações futuras. Um grande número delas,
sobretudo nas sociedades subsaarianas optaram pela transmissão
oral, sendo uma de suas marcas culturais. No entanto,
as populações africanas presentes nos limites do deserto
do Saara e do Sudão legaram à escrita a humanidade. Os
sistemas de escrita dos Akan e dos Manding originaram
a escrita egípcia e meroítica. Hoje está comprovado que
a escrita dos faráos vieram do Sudão (apud NASCIMENTO,
1996, p. 42)
A pedra Rosetta que é uma inscrição com hieróglifos egípcios
e outras línguas antigas conhecidas ao ser decifrada,
em 1787, comprovou-se que quase todo o conhecimento científico,
religioso e filosófico da Grécia antiga teve origem no
Egito (África). Elisa Nascimento informa que Sócrates,
Platão, Tales de Mileto, Anaxágoras e Aristóteles estudaram
com sábios africanos. O saque empreendido no continente
africano e a destruição da biblioteca de Alexandria encobre
um processo de apagamento e de descrédito dos conhecimentos
africanos tornando-os exóticos, místicos e míticos. Elisa
L. Nascimento também menciona a citação do conde Constantino
Volney, membro da Academia Francesa:
Lembrei-me
da notável passagem onde diz Heródoto: “E quanto a mim,
julgo ser os colchianos uma colônia dos egípcios porque,
iguais a estes, são negros de cabelo lanudo”. Em outras
palavras, os antigos egípcios antigos eram verdadeiros
negros, do mesmo tipo que todos os nativos africanos.
(...) Pensem só, que esta raça de negros, hoje nossos
escravos e objeto de nosso desprezo, é a própria raça
a quem devemos nossas artes, ciências e até mesmo o uso
da palavra! (apud NASCIMENTO, 1996, p. 43)
As contribuições
das diversas nações africanas, ao longo da história,
para o desenvolvimento cultural, econômico, político,
científico e tecnológico da humanidade é vasta e complexa,
muito embora esse reconhecido seja prejudicado pela perspectiva
preconceituosa que o ocidente europeu-norte-americano
e sob sua influência cultural e científica nutre em relação
ao continente-pai. Essa cultura do norte da África tem
sido extremamente importante para toda a humanidade até os
dias de hoje, particularmente pelos conhecimentos que
ainda revela.
O conhecimento
tecnológico estava presente em diversos ambientes culturais
e sociais África antiga. O saber médico, sanitário, os
cálculos matemáticos e o universo astronômico eram em
graus diferenciados parte deste continente. A medicina
egípcia, por exemplo, tinha seu conhecimento a partir
dos experimentos e estudos voltados para o interior do
organismo humano, elaborado em função da prática da mumificação,
do embalsamento do corpo dos faraós e de pessoas influentes
desta sociedade. Deste modo se a medicina tem um pai é o
cientista clínico egípcio Imhotep1, que acerca
de 3.000 anos antes de Cristo já aplicava os conhecimentos
médicos e de cirurgia (SOUZA e MOTTA, 2003; NASCIMENTO,
1996).
O conhecimento
médico não esteve situado apenas no norte africano, na
região que hoje compreende Uganda, país da África Central,
encontramos o saber antigo dos Banyoro que já fazia a
cirurgia de cesariana antes do ano de 1879, quando o
Dr. R. W. Felkin, cirurgião inglês conheceu essa técnica
com extrema eficácia e técnica de assepsia, anestesia,
hemostasia e cauterização. O conhecimento médico cirúrgico
antigo e tradicional na África, também, operava os olhos
removendo as cataratas. Essa técnica foi encontrada no
Mali e no Egito, bem como acerca de 4.600 anos atrás,
neste último país mencionada, já se fazia a cirurgia
para a retirada dos tumores cerebrais (NASCIMENTO, 1996,
p. 26). Os Banyoro, também, detinham a séculos atrás
o conhecimento acerca da vacinação e da farmacologia,
logo as técnicas médicas e terapêuticas africanas não
estavam voltadas, somente, para o mundo mágico, mas eles
conhecimento científico, para a observação atenta do
paciente (NASCIMENTO, 1996, p. 27)
O saber astronômico
também era uma área de extremo conhecimento africano.
Segundo Souza e Motta2 (2003, p. 40; NASCIMENTO,
1996):
no atual
país do Quênia3,
em 1973, foram encontrados, ao lado do Lago Turkana4, os restos de um observatório
astronômico, o que a evidencia e atesta a complexidade
de desenvolvimento cultural pré-histórico na África sub-saariana5. Também um sistema de calendário complexo e preciso, baseado nos
cálculos astronômicos, foi desenvolvido por estes povos
até o primeiro milênio a.C.
O conhecimento
dos Dogon6, no Mali7, em relação à astronomia é antigo.
Há dados que informam que eles conheciam, desde há 5
ou 7 séculos antes da Era Cristã, o sistema solar, a
Via Láctea com sua estrutura espiral, as luas de Júpiter
e os anéis de Saturno. Já compreendiam que o universo é habitado
por milhões de estrelas e que a lua era deserta e inabitada,
sendo refletida pelo sol à noite (SOUZA E MOTTA, 2003;
NASCIMENTO, 1996)
Diversos foram
os povos africanos que lidaram com a metalurgia há milhares
de anos. Citamos como exemplo o desenvolvido pelos Haya8,
acerca de 2.000 anos atrás, em que “produziam aço
em fornos que atingiam temperaturas mais altas em duzentos
a quatrocentos graus centígrados do que eram capazes
os fornos europeus até o séc. XIX” (SOUZA e MOTTA, 2003,
p. 40-1).
Segundo,
ainda, o estudo de Souza e Motta9 (2003, p.
41):
A tecnologia aplicada na África
antiga encontra-se nas ruínas de Monomatapa. A Construção
de Monomatapa10, capital de um império que durou
trezentos anos, significa uma verdadeira façanha de engenharia,
encerrando uma cidade murada de dez mil habitantes. Coerente
com a atitude eurocêntrica, os estudiosos atribuíram
sua construção a povos exógenos à África, e até a extraterrestres,
no vão esforço de negar que o Grande Zimbáue11 fosse construído por africanos
negros.
Veja as ilustrações
abaixo que refletem a riqueza e o potencial científico
e tecnológico dos povos que habitaram essa região africana.
Vale ressaltar que essa antiga cidade de Zimbábue era
a sede de uma desenvolvida civilização que floresceu
entre os séculos IX e XIII.
A matemática, a geometria e a engenharia tem na África
um conhecimento antigo. As pirâmides do Egito, por exemplo,
revelam isso, na medida em que projetou-se um monumento
para durar ao longo do tempo, mas que foi construído
há 2.700 anos de Cristo, com ângulos de 0,7º. Os Yorubás,
também, detinham um conhecimento tradicional, como diversas
culturas, etnias e nações africanas baseada em múltiplos
de 20, como nos foi revelado por Elisa L. Nascimento
(1996, p. 30).
A presença da cultura e da civilização
africana está presente na Ásia, a partir da transposição
dos rios Tigre e Eufrates, na região que compreende a
porta de entrada do Oriente Médio (Irã, Iraque, Palestina
e Israel). John Baldwin em 1872, registrava que
Os povos descritos nas escritas
hebraicas como de Cush foram os civilizadores primordiais
do sudoeste da Ásia, e na mais remota antiguidade sua
influência estabeleceu-se em todas as regiões litorâneas,
desde o extremo leste até o extremo oeste do antigo mundo
(apud NASCIMENTO, 1996, p. 58).
A
grande civilização suméria que se ergueu, acerca de 3
milênios antes da Era Cristã, na região da mesopotâmia,
tiveram nos cuchitas do vale do Nilo (Egito), sua influência
já que Sumer era uma das colônias de Cush. Os sumérios
identificavam como sendo os “cabeças pretas”, numa nítida
alusão a sua origem africana. Os africanos cuchitas foram
os responsáveis pela construção da cidade-Estado de Ur,
edificando moradias e templos piramidais cujas laterais
lembravam escadarias, seguindo a arquitetura dos núbios,
denominadas de ziggurats. A influência cultural
dos cuchitas na Ásia desenvolveu-se na área que compreendia
o Baluquistão (atual parte norte do Irã, sul do Paquistão
e a oeste da Índia), conhecida como Gedrosia, o país
dos escuros. Os gregos os chamavam de Anariakoi, isto é não
arianos. Hoje a região é denominada de Khuzistan, terra
de Khuz ou Cush (NASCIMENTO, 1996, p. 58-9).
A
península arábica também foi habitada originalmente por
negros, oriundos do norte e nordeste da África, acerca
de 8 mil anos atrás. Eles eram chamados de Veddoids,
estando ainda hoje seus descendentes em porção significativa
no mundo arábe. As relações intensas neste processo histórico
de migrações constantes entre os dois continentes (África
e Ásia) deram conta da construção de civilizações anteriores
ao islamismo, mencionadas na literatura grega e romana
antiga como a Arábia feliz. Os processos miscigenatórios
que ocorreram nesta região de encontros milenares propiciaram
o surgimento da população de Sabá, que teve como rainha,
a lendária, Makeda. Mais tarde, essa rainha, teve seu
filho Menelik, com o rei Salomão de Israel. Vale lembrar
que, a Etiópia teve seu reino sendo dirigido por mais
de 3 mil anos pelos descendentes de Makeda, ou seja somente
com a queda de Haile Selassie no século XIX (NASCIMENTO,
1996, p. 59-60).
A
grande civilização da Índia foi originalmente constituída
pela população de origem africana, segundo Cheik Anta
Diop, Van Sertima e Rashidi. Ela tinha sua economia voltada
para o mundo agrícola, posteriormente a Índia foi invadida
pelos arianos, povos nômades e guerreiros, que dominaram
essa população original e a subjugaram, impondo-lhe uma
cultura adversa a sua de natureza patriarcal e vindo
a introduzir os sistemas de castas, presente até os dias
atuais (apud NASCIMENTO, 1996, p. 60-4). O sistema de
casta imposto pela cultura ariana estava baseada em critérios
raciais. A palavra varna, que em sânscrito quer dizer
casta, também significa cor. A casta baixa eram os sudras,
ou seja os negros. Na realidade indiana atual como no
passado, os descendentes destes africanos tem permanecido
nas castas baixas, sendo denominados de párias ou outras
categorias sociais tratadas com total desprezo pelas
castas privilegiadas nesta sociedade.
A
contestação ao sistema de castas é histórica na Índia.
Há 600 anos antes da Era Cristã, com o culto de Sidhartha
Gautama, o Buda, esse processo se intensifica. Segundo
Van Sertima e Rashidi, o nascimento deste culto floresce
dentro das populações negras desta imensa nação, até porque
o próprio Buda era negro, como nos demonstra as estátuas
e imagens antigas com traços evidentes da sua origem
africana (apud NASCIMENTO, 1996, p. 64).
Heródoto
já mencionava em suas obras que a Índia tinha sua origem
social e histórica-cultural a partir da presença e influência
africana, particularmente da região do Egito e da Etiópia
(nordeste) do continente africano. Os Sind eram os africanos
que povoaram a Índia e o Paquistão. Segundo diz o historiador
e antropólogo indiano Vidya Bhavan: “Temos de começar
com os povos negros da Índia pré-histórica, que foram
seus primeiros habitantes. Originalmente, parecem ter
vindo da África através da Arábia e das costas de Irã e
Baluquistão” (apud NASCIMENTO, 1996, p. 60).
A
ocupação da população africana na China, Japão e Sudeste
Asiático remonta a aproximadamente 50 mil a 10 mil anos
atrás. Os materiais paleontológicos e arqueológicos encontrados
referentes aos Homo sapiens sapiens de origem africana,
chamado de Liu Chiang, nas províncias de Szechuã e Kiangs,
datam do período do pleistoceno. A mitologia chinesa
identifica essa população original como sendo os Ainu,
de nariz chato e cabelo “duro”. A palavra Ainu tem origem
no Egito, referindo-se a pessoa de cor preta, espalhando-se
por todo o mundo, de modo a encontrá-la no Japão e na
Irlanda.
No
Japão, o lendário comandante Sakanouye Tamuramaro, conhecido
pela sua valentia e determinação é, ainda homenageado
pelos antigos com o provérbio: “Para um samurai12 ter
coragem é preciso que tenha sangue negro” (apud NASCIMENTO,
1996, p. 64). Os Ainu, são interpretados no mito
chinês como sendo homens de baixa estatura, possivelmente
sendo oriundos do povo Twa (da África Central), de cabelo
lanudo, que originaram as instituições políticas, sociais,
religiosas, as técnicas agrícolas, a cultura matrilinear
e a escrita chinesas. Eles são lembrados como aqueles
que pertenciam a dinastia divina de Fu-Hsi (2953-2838
a.C.) e Shen-Nung (2838-2806 a.C.). Os Ainu, também,
desenvolveram o sudeste asiático, particularmente, o
Cambodja, legando a cultura Funan, que floresceu no 300
d.C., na medida em que estabeleceram uma sofisticada
tecnologia de engenharia hidráulica. Segundo Nascimento
(1996, p. 64): “No séc. VI, os Khmer absorvem essa
cultura e a misturam com o culto budista a Shiva. Responsáveis
pelo famoso complexo arquitetônico de Angkor Wat, os
Khmer eram ‘escuros, com o cabelo em carapinhas’”.
A
presença dos africanos na Europa e na América também é antiga.
A Grécia e suas ilhas em sua antiguidade também contou
com a contribuição civilizatória dos negros. Schliemann,
segundo Nascimento (1996, p. 66), após escavações em
Tirins e Micena nos diz: “Parece-me que esta civilização
pertencia a um povo africano”. Referente a Creta,
nos informa Evans: “Gostem ou não do fato, os estudiosos
clássicos são obrigados a considerar as origens. Os gregos
que discernimos nessa nova aurora não eram nórdicos de
pele clara, mas essencialmente a raça de cabelo preto
e pele escura” (apud NASCIMENTO, 1996, p. 66).
As Nossas Senhoras negras, por
exemplo, a de Loretta na Itália; Nuria na Espanha; e
Czestochawa, na Polônia, estão presente em toda a Europa,
desde tempos remotos, demonstrando a relação sincrética
ou inculturada histórica e culturalmente compreensível,
que retratam Ísis, deusa núbia e egípcia da fertilidade.
Plínio, antigo historiador romano, destaca esse fenômeno
inclusive na Inglaterra e na Alemanha, talvez introduzidos
pelos faraós egípcios que visitaram a Europa entre 1.900
e 1450 anos antes da Era Cristã. Vale ressaltar que nas
legiões romanas haviam muitos africanos que praticavam
o culto a Ísis e estiveram em toda a Europa, além do
fato de que cerca de 1000 etíopes ocuparam Cádiz (atual
Espanha) aproximadamente mil anos desta Era e se mantiveram
por lá, por volta de 150 anos, formando uma comunidade
unida, forte e estrutura sócio-politicamente, antes de
ser submetida pelos romanos (apud NASCIMENTO, 1996, p.
66).
Com
relação ao universo cristão, em particular, cristão é pouco
referida a existência de 3 Papas africanos na história
da Igreja Católica Apostólica Romana. O primeiro foi
Vítor I (14º papa após S. Pedro), que assumiu o papado
no ano de 189 e sendo o responsável pela fixação da festa
da Páscoa no Domingo. Além de ser o primeiro a celebrar
a missa em latim. Miltíades, que assumiu em 311, trabalhou
para que cessasse a perseguição aos cristãos, assistindo
a vitória de Constantino no poder romano. Gelásio I (492-496)
ficou conhecido pela sua ação social em prol dos empobrecidos,
sendo autor de diversos hinos e ensaios teológicos. Esses
três Papas foram canonizados. Atualmente, não se menciona
o fato deles serem africanos ou seus traços físicos quando
retratados não demonstram esse pertencimento racial.
Aparentemente,
a população afro-arábica, denominada de moura, de origem
no povo Garamante que habitavam o Saara, acerca de 5.000
anos de Cristo, e invadiu o Egito em 640 d. C., atravessou
o estreito de Gibraltar, sob a liderança do general Gabel
Tarig, e permaneceu na Europa de 711 até 1492, influenciando
toda a vida social, política, cultural, científica e
religiosa européia. Inclusive introduzindo o pensamento
de Aristotélico neste continente, a partir dos monastérios
e da vida social laica, propiciando a interpretação de
Aristóteles por S. Tomás de Aquino em sua Suma Teológica
(NASCIMENTO, 1996; ANDRADE FILHO, 1989, LIBERA, 1999).
Essa população contribuiu imensamente com a Europa Ocidental,
em particular com Portugal e Espanha, não destruindo,
ao longo destes 700 anos de ocupação, os monumentos e
igrejas cristãs que lá encontrou, mas manteve este acervo
cultural ibérico e europeu. Vale mencionar que o contrário
ocorreu quando o ocidente europeu invadiu a África e
o Oriente, particularmente aquele em que a maioria é islâmica.
A
presença africana, também, se fez no norte europeu, na
Escandinávia e na Irlanda, o Estado Egípcio, desde a
12ª dinastia dos faraós Senusert I e Tutmose III, quase
2 milênios antes da Era Cristã, mantinha relações comerciais
com essa região européia, sobretudo para buscar minérios,
tais como estanho. A empresa naval e bélica egípcia mantinha
esses contatos com essas regiões. MacRitchie infoma que
3 províncias escocesas eram negras até o século e, no
século XVIII as ilhas ocidentais Skye, Jura e Arran,
ainda mantinham uma maioria negra, oriunda desta população. É,
ainda, hoje lendária a presença dos fomorianos, marinheiros
africanos que invadiram e tentaram conquistar a Irlanda
em tempos remotos. As deusas egípcias Nath e Anu permanecem
vivas nos cultos tradicionais da Irlanda. Desse modo,
verifica-se que nas mitologias escandinava sobretudo
dinamarquesa, inglesa, francesa e alemã estão presente
os homens negros, de pequena estatura e de cabelos lanudos
(carapinha) (apud NASCIMENTO, 1996, p. 68).
Foram “17 peças de escravizados” africanos que aportaram no
Brasil em primeiro lugar, segundo os registros históricos
em 1533, com Pero de Góis. Posteriormente em 1539, eles
são trazidos por solicitação de Duarte Coelho, donatário
da capitania de Pernambuco. Eles vieram de Guiné. O ciclo
da cana de açúcar iniciado no Brasil, na década de 50
do século XVI, teve a contribuição de africanos aportados
em Cabo Verde, mas de diferentes grupos étnico-nacionais
sudaneses, porém tendo como principais contribuidores
neste momento econômico brasileiro os africanos os de
origem Bantu (Banto) situados nos atuais países de Angola, Moçambique e a República Democrática do Congo. Esses bantus contribuíram
intensamente com a agricultura no Brasil, tanto que Maestri
Filho (1984, p. 10)diz:
Nos primeiros séculos da era cristã, em vastas
regiões da África ao sul do Saara, comunidades negras
praticavam uma agricultura itinerante assentada sobre
a metalurgia do ferro, conheciam o pastoreio, exerciam
um artesanato crescentemente refinado.
A cultura do café coincidiu com a crise e o final de tráfico negreiro
no plano externo, ocasionando no plano interno o deslocamento
de escravos das minas e dos engenhos para os cafezais.
Era compreensível que isto ocorresse, visto que a produção
cafeeira assumia a liderança das exportações brasileiras,
após a década de 1830, sendo responsável pelo deslocamento
dos centros de decisão do país.
Em poucas décadas, a cultura cafeeira produziu a maior concentração regional
de escravizados no Brasil, expandindo-se em áreas, até então,
esparsamente povoadas. Os lucros do café, em São Paulo,
propiciaram várias discussões matizadas pelos interesses
econômicos e políticos entre as quais se encontram as
desenvolvidas pelos pequenos e médios fazendeiros que,
formados dentro de uma concepção burguesa e liberal emanada
da Europa, fortaleceram a luta pelo fim do escravismo.
Muito embora, sustentassem a idéia da mão-de-obra assalariada
exercida pelos imigrantes europeus.
Mesmo antes do término da escravidão São Paulo já utilizava o trabalho
livre com os imigrantes europeus em regime de parceria
ou de colonato. Esta conformação econômica e populacional
fez de São Paulo uma “província estrangeira”. Essa realidade
de São Paulo foi maximizada em relação às províncias
do sul (Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul) que
receberam uma grande quantidade de mão de obra européia,
destacam-se neste fluxo os alemães e italianos que se
encontravam em guerras de unificação territorial na Europa.
Com a chegada destes e outros europeus a população africana
escravizada de origem Bantu, proveniente do tráfico interno,
pelo litoral, mas também pelo Rio da Prata (oriundos
da região meridional da África via Argentina e Uruguai)
estabeleceram no Brasil a rica e próspera economia exportadora
do charque nas estâncias gaúchas (CARDOSO, 1991).
Após a abolição legal da escravatura e com o advento da República, o
processo de europeização avançou nas regiões sudeste
e sul do país. Os africanos e seus descendentes foram
marginalizados do mercado de trabalho ascendente que
emergiu com a crescente urbanização e industrialização.
Fernandes (1978, p. 28) diz que para os “negros” na Velha
República abriram-se
duas alternativas irremediáveis; vedado o caminho
inequívoco da classificação econômica e social pela proletarização,
restava-lhes aceitar a incorporação gradual à escória
do operariado urbano, em crescimento, ou abater-se, penosamente,
procurando no ócio dissimulado, na vagabundagem sistemática
ou na criminalidade fortuita, meios para salvar as aparências
e a dignidade de homem livre.
Com toda essa realidade vivida pelos africanos no Brasil desde o século
XVI, muito embora tenham sofrido diversas hostilidades,
adversidades perpetradas pela violência institucional
patrocinadas pelo sistema da escravidão e pelos escravizadores
que conquistaram o Brasil, foram eles que construíram
a civilização brasileira, na medida em que colonizaram
esta sociedade como disse o jesuíta André João Antonil: “Os escravizados são as mãos e os pés do senhor de engenho,
porque sem eles não é possível fazer, conservar e aumentar
fazenda, nem ter engenho corrente” (apud BOSI, 1993, p. 162).
O que Antonil, Vieira, Matos, Alencar, Cunha, Lobato, Viana
não disseram ao longo da história da cultura brasileira é que
o legado africano para o Brasil foi e tem sido imensa,
desde a produção musical até a industrial, além das artes,
das ciências e das instituições sociais e religiosas,
na medida em que foi ele de fato e direito o grande civilizador
e colonizador da nação. Porém, Manuel Querino (1988,
p. 122) procurou ser enfático, no início do século XX:
foi o trabalho do negro que aqui sustentou por
séculos e sem desfalecimento, a nobreza e a prosperidade
do Brasil; foi com o produto do seu trabalho que tivemos
as instituições científicas, letras, artes, comércio,
indústria etc., competindo-lhes, portanto, um lugar de
destaque, como fator da civilização brasileira.
Quem quer que compulse a nossa história, certificar-se-á do
valor e da contribuição do negro na defesa do território
nacional, na agricultura, na mineração, como bandeirante,
no movimento da independência, com as armas na mão, como
elemento apreciável na família, e como herói do trabalho
em todas as aplicações úteis e proveitosas. Fora o braço
propulsor do desenvolvimento manifesto no estado social
do país, na cultura intelectual e nas grandes obras materiais,
pois que, educandos: feneceriam as aspirações mais brilhantes,
dissipar-se-iam as tentativas mais valiosas. Foi com
o produto do seu labor que os ricos senhores puderam
manter os filhos nas universidades européias, e depois
nas faculdades de ensino do país, instruindo-os, educando-os,
donde saíram veneráveis sacerdotes, consumados políticos,
notáveis cientistas, eméritos literatos, valorosos militares,
e todos quantos ao depois fizeram do Brasil colônia,
o Brasil independente, nação culta poderosa entre os
povos civilizados (...) Tratando-se da riqueza econômica,
fonte da organização nacional, ainda é o colono preto
a principal figura, o fator máximo.
Mais tarde, dirá veementemente Gilberto Freyre (1987, p. 462-63) que
entre outros fatores civilizatórios:
foi ainda o negro quem animou a vida
doméstica do brasileiro de sua maior alegria. O português,
já de si melancólico, deu no Brasil para sorumbático,
tristonho; e do caboclo nem se fala: calado, desconfiado,
quase um doente na sua tristeza. Seu contato só fez acentuar
a melancolia portuguesa. A risada do negro é que quebrou
toda essa ‘apagada e vil tristeza’ em que foi abafando
a vida nas casas-grandes. Ele que deu alegria aos são-joões
de engenho; que animou os bumbas-meu-boi, os cavalos-marinhos,
os carnavais, as festas de Reis. Que à sombra da Igreja
inundou das reminiscências alegres de seus cultos totêmicos
e fálicos as festas populares do Brasil; na véspera de
Reis e depois, pelo carnaval, coroando os seus reis e
as suas rainhas, fazendo sair debaixo de umbelas e de
estandartes místicos, entre luzes quase de procissão,
seus ranchos protegidos por animais – águias, pavões,
... – cada rancho com o seu bicho feito de folhas-de-flandres
conduzido à cabeça, triunfalmente; os negros cantando
e dançando, exuberantes, expansivos (...) Nos engenhos,
tanto das plantações como dentro de casa, nos tanques
de bater de roupa, nas cozinhas, lavando roupa, enxugando
prato, fazendo doce, pilando café; nas cidades, carregando
sacos de açúcar, pianos, sofás de jacarandá de ioiôs
brancos – os negros trabalharam sempre cantando: seus
cantos de trabalho, tanto quanto os de Xangô, os de festa,
os de ninar menino pequeno, encheram de alegria africana
a vida brasileira. Às vezes um pouco de banzo: mas principalmente
de alegria.
No tocante a relação do africano escravizado com a família do senhor.
Já que na maioria dos casos presentes na história brasileira,
negros e negras não puderam ter sua família, Querino
(1988, p. 121-22) informa:
Uma vez removido para o lar doméstico, o escravizado
negro, de natureza afetiva, e, no geral, de boa índole
e com a sua fidelidade a toda a prova, a sua inteligência
(...) conquistava a estima dos seus senhores pelo seu
sincero devotamento, e sua dedicação muitas vezes até ao
sacrifício. Foi no lar do senhorio que o negro expandiu
os mais nobres sentimentos de sua alma, colaborando,
com o amor dos pais, na criação de sua tenra descendência
dos seus amos e senhores, com o cultivo da obediência,
do acatamento, dos respeito à velhice e inspirando simpatia,
e mesmo amor a todas as pessoas da família.
As mães negras eram tesouro de ternura para os
senhores moços no florescimento da família dos seus senhores.
Desse convívio no lar, resultaram as diversas modalidades
do serviço íntimo, surgiram então a mucama de confiança,
o lacaio confidente, a ama-de-leite carinhosa, os pajens,
os guarda-costas e criados de estima.
Muito embora, possamos ter na perspectiva de Querino um mundo quase idealizado
e amalgamado pela cultura africana, destituído de violência
aparente, constatamos que as mulheres africanas e afro-brasileiras
em todo o processo de escravização foram usadas nos mais
diversos serviços produtivos, seja no eito, seja na casa
do senhor/da sinhá como mucama, ama-de-leite etc. Sendo,
também, nesta sociedade colonial-imperial, de raiz patriarcal
e machista, que elas também foram usadas como animais
sexuais, sendo submetidas às mais variadas sevícias,
estupradas muitas vezes pelos senhores e sinhôzinhos
da casa-grande e do sobrado. Elas também não contaram
com o apoio das sinhás, pelo contrário em muitos casos
perderam a vida a mando dessas outras mulheres brancas.
Desses e outros tantos estupros, elas tiveram que abortar,
cometer o infanticídio ou mesmo se suicidar não gerando
essas crianças em seus ventres, posto que nasceriam também
escravizadas, mesmo quando o Brasil contava com a lei
do Ventre Livre, no século XIX. Desses processos sexuais
muitas crianças miscigenadas nasceram no país. Em vários
casos, as meninas africanas e afro-brasileiras tiveram
que exercer o caráter purgativo diante de homens sifílicos
(FREYRE, 1987; FONSECA, 1994).
A despeito de toda e tanta violência social, sexual e étnico-racial em
que estiveram submetidas essas mulheres negras construíram
um universo cultural repleto de símbolos e de signos
que tem marcado a sociedade brasileira, seja a partir
de suas crenças e religiosidades que remetem a antiguidade
africana dos ancestrais e dos antepassados, seja a partir
da organização familiar com o seu caráter matrilinear,
seja a partir de um cenário supostamente não violento,
harmônico e sagrado que é a cozinha com seus cheiros, suores e segredos (QUERINO, 1988; SOUSA
JR., 1996). Segundo Raimundo Nina Rodrigues (1988, p.
101) essas mulheres estavam
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Notas
Vale ressaltar que Hipócrates
considerado o fundador da medicina pelos europeus, atuava
por volta de 460 a.C. na Grécia, responsável pela convenção
do chamado juramento hipocrático como compromisso profissional
do médico. Fazendo pouca ou nenhuma alusão à Imhotep
em seus registros científicos.
Lago Turkana: é o maior lago salgado
da África, localizado ao norte da República do Quênia é um
importante laboratório para o estudo de comunidades animais
e vegetais.
sub-saariana: Região da África
composta por 34 Estados.
dogon: Um grande mistério
cerca a vida dos dogons, povo, ao que se acredita, de
ascendência egípcia. Depois de saírem da Líbia, há milênios,
fixaram-se na falésia de Bandiagara, no Mali, África
Ocidental, levando consigo as informações sobre o Cosmo,
que remontam ao Egito pré-dinástico, anterior a 3200
a.C.
Grande ZimbáueO Grande Zimbábue é o que restou de um povoado,
todo construído por uma muralha monumental. Centro
de uma importante cultura dedicada à pecuária, seus
muros medem quase 10 m de altura. O motivo de seu
abandono repentino é desconhecido, embora sua lenda
como santuário tenha persistido até o início deste
século.